Síria: perigo, inflamável



Os protestos na Síria já duram cinco meses, e milhares de civis foram vitimados na luta pela democratização do país. O cenário é incerto e a comunidade internacional hesita em assumir posições mais duras. Os efeitos colaterais de uma intervenção militar ocidental poderiam culminar no alastramento do conflito para toda região e provocar fissuras no tênue equilíbrio de poder no Oriente Médio.
O regime de Bashar al Assad possui uma imensa capacidade de desestabilização política. Para Estados Unidos e Europa, não parece interessante a substituição de um regime com diretrizes políticas previsíveis por um governo-incógnito de  tendência religiosa.
A Síria não possui recursos naturais atrativos para o Ocidente.
Nessa perspectiva, a importância política de Damasco baliza-se sobre três pilares: influência e interlocutores privilegiados  como Hizbollan e o impacto sobre a segurança de Israel: relações profícuas com o Irã consubstanciadas num  tratado bilateral de defesa mútua contra intervenção externa; interlocução indireta e paz velada com Israel.
No panorama israelense, a manutenção de Al Assad é o cenário ideal. Um novo governo tenderá a  ser mais eloqüente na exigência  pela devolução de Golã, o que não seria conveniente para a frágil e hibrida coalizão do governo Netanyahu, sob forte pressão popular.
Além disso, Israel está focado em outro front diplomático: a contenção da proposta palestina de reconhecimento unilateral de seu Estado na ONU. Para a Autoridade Palestina, uma intervenção ocidental seria caótica. Além de solapar o incipiente com o Hamas, contribuiria para o acirramento do extremismo, o que levaria a ações armadas inconseqüentes.
No Líbano, a queda do regime sírio seria um desastre para a colisão política “movimento 8 de março”, que governa o país atualmente, e aprofundaria a divisão interna ético-religiosa. No caso da Turquia, a estabilidade da Síria é fundamental para a não insurgência curda na região e para a contenção de uma migração em massa de refugiados derivada do conflito.
Devem ser destacadas as diferenças na axiologia do movimento pró-democracia no Egito, em contraste com a da Síria.
No caso egípcio, a revolução nasceu na capital e ganhou força pelo país. Na Síria, a revolução está contida ainda no interior. Além disso, o pleito por mudanças está  concentrado num setor especifico da sociedade síria e não se apresenta como um consenso geral da nação, como ocorreu no Egito.
Questões fundamentais pairam sobre as potencias ocidentais: qual seria o custo político e financeiro de apoiar um plano de intervenção militar diante da fragmentação e da exaustão da OTAN após Afeganistão, Iraque e, mais recentemente, Líbia? Afinal, seria a quarta ofensiva militar ocidental num país mulçumano. Compensaria defender a democracia síria – sem petróleo à vista – além de colocar em risco a segurança de Israel?
Valaria atrair o Irã para o conflito? A opção, por ora, para os Estados Unidos e para Europa, é o isolamento internacional de Al Assad e o exercício de pressões diplomáticas por meio de países árabes alinhados ao ocidente.
A declaração condenatória da ONU ao regime sírio possui apenas efeito moral, sem resultados práticos. o fato é que as principais potências não estão dispostas a arriscar. É conveniente para todos a permanência do regime.
O desafio é como defender isso perante o massacre civil.

Hussein Alin  Kalout – cientista político, especialista em Oriente Médio, é professor de relações internacionais e secretario de relações internacionais do Superior Tribunal de Justiça

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