Como Funciona uma revolução



Embora Tocqueville (1805-59) seja mais conhecido do grande público pelas famosas obras-primas A democracia na América (1835-40) e O antigo regime e a Revolução (1856) do que pelas Lembranças, estas são, contudo, uma obra tão original e clássica quanto às duas primeiras. Escritas (entre 1850-51) como memórias, com a intenção deliberada de não serem publicadas (pelo menos em vida do autor), as Lembranças, cuja primeira edição é de 1893 e que giram em torno da Revolução de 1848 na França, revelam o quanto o pensador político Tocqueville foi um observador e analista genial do seu tempo e da história.
Os clássicos são os livros que se renovam a cada época. A onda de revoltas populares em curso no mundo árabe confere nova atualidade a esta reedição das memórias de Tocqueville em torno da Revolução de 1848 na França.
Deputado e ministro durante aquele período tumultuoso, Tocqueville redigiu as recordações quando o advento da ditadura de Napoleão  3° (1851) lançou políticos moderados como ele no ostracismo. Não pretendia publicá-las, o que terá para o tom confessional adotado no escrito
Mas este não é apenas o relato minucioso de  uma revolução enquanto se desenrolava, nem seu autor foi  somente um parlamentar  liberal-conservador. Alexis de Tocqueville (1805-1859) é um dos principais pensadores políticos da modernidade.
Sua crítica a democracia de massas, imbuída de admirável argúcia histórica e sociológica (embora lhe faltasse a dimensão econômica), ecoa até hoje. E seu texto é o de um escritor, sem abstrações nem jargão acadêmico.
A idéia essencial de Tocqueville é que a modernidade acarreta necessariamente a democratização do poder político e a redução das desigualdades. Desse aspecto desejável  decorrem, porem, dois riscos: o primeiro é que a maioria venha a exercer uma forma inédita de ditadura “democrática”, capaz de suprimir a liberdade e o direito à discórdia.
O outro risco é que um líder populista (ele pensava em Napoleão 3°, modelo de outocrata moderno também para Karl Marx) possa encarnar a vontade da maioria, legitimando-se por mecanismo plebiscitário até converter a ditadura (um exemplo: Hugo Chaves da Venezuela)em despotismo pessoal.
Além da Grande Revolução de 1789, houve revoltas democratizantes na França em 1830 e em 1848 (haveria outra 1970). Tocqueville insiste que todas essas insurreições são “apenas uma (...) que nossos pais viram começar e, segundo toda probabilidade, nós não veremos terminar.
A revolução é sempre a mesma porque o seu sentido igualitário não muda. Mas é também a mesma por gerar mitos e ilusões que repetem a cada onda. Assim, toda revolução segue um movimento pendular, em que a ruptura inicial se acelera numa direção cada vez mais extrema.
Alcançado, porém, um enigmático ponto de saturação, o pêndulo se detém e começa um brutal movimento na direção inversa rumo à restauração. Essa é a farsa que se repete; seu saldo histórico não é nulo, pois a restauração nunca e completa. No entanto, a comédia é também tragédia pela sanguinolência inevitável dos acontecimentos.
Como conservador que era, Tocqueville preferia a lenta evolução dos costumes, a sedimentação cumulativa das experiências, que as revoluções  expressam e impulsionam, mas  também desbaratam .  Ao lado de “Democracia na America” e “O Antigo Regime e a Revolução” , seus dois livros famosos, as “Lembranças de 1848” não deveriam faltar na estante do estudioso de historia ou ciência política. E são leitura prioritária para quem quer conhecer o mecanismo das revoluções e a dança macabra que ele comanda.

Roberto Arouck

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