QUANDO OS FRACOS VENCEM



Umas das quase constantes na historias militar é que forças militares maiores e mais bem equipadas tendem a derrotar forças menores e menos bem armadas. Igualmente constantes na historia, contudo, são os casos de força armadas pequenas que conseguiram assediar essas máquinas militares grandes, sustar seu avanço e até mesmo derrotá-las.
Nos tempos modernos, especialistas nesse método de guerra apresentaram a doutrina de seu êxito. Estes incluem Che Guevara, Ho Chi Minh e Mao Zedong, entre outros.
Na linguagem militar atual, as guerras de guerrilhas são “irregulares” e “assimétricas”. São irregulares na medida em que incluem um antagonista que é um grupo armado, mas não uma força militar tradicional. E são assimétricas porque há desproporção entre os adversários em matéria de poderio militar bruto – pessoal e equipamentos. Hoje em dia, e graças a grupos como Al Qaeda e Taleban, os conflitos irregulares e assimétricos tornaram-se a praxe.
Hoje, a guerra raramente opõe diretamente dois exércitos nacionais,  e quando isso ocorre ( como na bem sucedida invasão americana do Iraque, em 2003), é mais provável que se dissolva em uma forma não tradicional, como uma insurgência.
Quando dois inimigos se enfrentam, a chance é maior que nunca antes na história moderna que aquele que parece ser mais franco, no papel, acabe por prevalecer. O número e variedades de atores envolvidos em conflitos militares não vinculados à defesa de um território particular, mas motivados por objetivos ideológicos, religiosos, criminosos ou econômicos politicamente sem fronteiras não tem precedentes na história moderna.
Considere o que aconteceu com a arte da guerra tradicional – do tipo que opõe forças militares organizadas, com exércitos nacionais ou que se enfrentam ou que enfrentam uma força rebelde com um território.
O estudioso de Harvard Ivan Arreguín-Toft analisou as 197 guerras desse tipo travadas em todo mundo entre 1800 e 1997 e que também foram assimétricas – ou seja, em que havia uma grande disparidade inicial entre os antagonistas, conforme o que se mede em termos tradicionais, pela combinação das dimensões de suas forças militares e sua população.
Arreguín-Toft constatou que, em quase 30% dos casos, o ator supostamente “fraco” venceu o conflito. Isso é notável por si só, mas mais notável ainda foi a tendência  ao longo do tempo. Nos últimos dois séculos o antagonista supostamente “fraco” viu suas chances de prevalecer aumentarem constantemente.
Entre 1800 e 1949, o ator fraco venceu apenas 11,8% do tempo. Mas, entre 1959 e 1998, o ator fraco venceu em 55% dos casos. Isso significa que um axioma fundamental  da guerra foi colocada de ponta-cabeça.
Houve uma época em que o poder de fogo superior prevalecia. Isso deixou de ser verdade. Os planejadores do pentágono estão pensando sobre isso. O Taleban, também.
Moisés Naím
Folha de São Paulo 19/08/2011
O venezuelano Moisés Naím, de 50 anos, é um estudioso e observador privilegiado do que acontece em política internacional. Ele dirige há dois anos a revista Foreign Policy, publicação americana especializada em relações internacionais. Grandes nomes, como Francis Fukuyama, Joseph S. Nye Jr. e Paul Krugman e até o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, escrevem para a revista, que foi fundada em 1970. Ministro da Indústria e Comércio da Venezuela no início dos anos 90, diretor executivo do Banco Mundial entre 1992 e 1995, Naím também é colunista do jornal inglês Financial Times e escreveu oito livros sobre economia e política internacionais. Mesmo às vésperas de uma eventual guerra entre os Estados Unidos e o Iraque e com a economia mundial em marcha lenta, ele mantém o otimismo. "A globalização econômica não se deteve e a política se intensificou depois do 11 de setembro", diz. "Países que nem se falavam há um ano hoje em dia são aliados."

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