O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro (Garl Sagan)
"O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista
como uma vela no escuro."
Garl Sagan
Garl Sagan
Companhia das Letras, São Paulo,
1996.
Sequestros por alienígenas,
anjos e gnomos, feitiçarias e maus-olhados, curas quânticas e o poder
extraordinário das pirâmides. Um dos muitos paradoxos do mundo moderno é a
convivência entre o enorme sucesso da ciência e da tecnologia e a disseminação
de crenças não científicas ou pseudocientíficas nas sociedades.
Mitos sempre existiram. A novidade
é que, no seio de nossa cultura "científica", vários deles assumem
formas "modernas" e procuram na própria ciência respaldo para se
sustentar - apesar de atropelarem sistematicamente os métodos científicos -,
produzindo as chamadas "pseudociências". Ironicamente, sua difusão é
enormemente facilitada pelos mesmos meios de comunicação de massa que a ciência
ajudou a criar. A ciência é "filtrada" por uma mídia em grande parte
acrítica e sua parte mais importante, o seu método crítico, não chega à população
em geral.
Poucos cientistas se arriscam
nesse debate. O astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan (1934-1996),
autor da série de TV Cosmos e um dos maiores divulgadores científicos de nossa
época, é uma exceção. Em O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista
como uma vela no escuro, ele ergue o estandarte da ciência para mostrar as
origens das teorias pseudocientíficas e usa-o para rebater inúmeros casos
específicos, desde histórias famosas sobre raptos por alienígenas até
"superstições estatísticas" em loterias e jogos de roleta.
A tese central de Sagan é que o
antídoto do cidadão comum para não tomar gato por lebre - ou ciência por
pseudociência - é a aliança equilibrada entre a postura cética e a abertura da
mente para ideias novas. A importância dessa atitude, diz o autor, é que
"as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em
nossa época do que em qualquer outro período anterior" (pág. 21), devido
aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida cotidiana, quando mau
usados. Desde 1996, ano da publicação do livro, os acontecimentos confirmaram e
aprofundaram essa ideia: avanços recentes como os medicamentos genéricos,
alimentos transgênicos e a engenharia genética, além de fatores mais antigos,
como usinas nucleares, armas nucleares, antibióticos usados indiscriminadamente
e produtos que destroem a camada de ozônio exigem modificações na legislação e
a participação de toda a sociedade para evitar efeitos nocivos.
Boa parte do livro contém uma
coleção preciosa de desmistificações de uma série de fenômenos
"inexplicáveis", incluindo previsões astrológicas, visões e raptos
por discos voadores e bruxarias. Mas a obra não se resume a um compêndio de
desmentidos. Trata-se de um livro vasto, que cobre uma série de aspectos das
origens das pseudociências e das relações entre a ciência e a sociedade.
Pode-se distinguir, entre os 25
capítulos, cinco partes principais. Nos dois primeiros, discute-se a
importância da ciência e suas características principais. A seguir, passa-se a
discutir os principais fatores responsáveis pela permanência das crenças
não-científicas na sociedade. As razões são certas características culturais e
biológicas herdadas de nossos antepassados longínquos, fundamentais para a
sobrevivência de nossa espécie, mas que podem funcionar como armadilhas para o
discernimento quando não reconhecidas. Cada capítulo versa sobre um aspecto
dessas armadilhas, ilustrado por vários exemplos concretos.
Por exemplo,a capacidade de reconhecer padrões, inata no ser
humano e que nos faz abstrair formas em nuvens e em conjuntos de estrelas
(constelações), é responsável pelas visões de canais em Marte e da face de
Cristo no mesmo planeta. Alucinações, coletivas ou não, são ilustradas por
visões de OVNIs e da Virgem Maria. Reconhecimento de padrões também aparecem na
falsa identificação de regularidades em fenômenos aleatórios, como em
especulações em jogos de loteria e de roleta.
Sendo o autor astrônomo, boa
parte desses primeiros capítulos dedica-se a desmentir histórias sobre visões e
raptos por seres extraterrestres, incluindo falsificações propositais - como os
círculos perfeitos nas plantações da Inglaterra -, teorias conspiracionistas,
como os casos Roswell e da Área 51, e disseminações de histórias através de
uma mídia quase acrítica.
A maior parte dos outros
assuntos é abordada em função das histórias sobre ETs. Por exemplo, são
identificados alguns paralelos entre histórias de raptos por OVNIs e histórias
de bruxas e de rituais satânicos - a maioria dos elementos centrais das
histórias de rapto por alienígenas está, segundo o autor, presente na paranoia
que queimou inúmeras mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média. Sagan
pretende mostrar com isso que os relatos de raptos por alienígenas são apenas
mais um tipo de representação mítica dos medos e desejos humanos: os ETs seriam
as versões modernas das bruxas, gnomos e duendes (curiosamente, o Brasil está
experimentando um novo "surto" de duendes e anjos povoando o mundo,
responsável pela repercussão de obras como as da escritora Mônica Buonfiglio).Alguns casos de raptos por alienígenas e de rituaissatânicos são explicados a
partir da memória recuperada de abusos sexuais na infância.
Resenha: Roberto Arouck

Comentários
Postar um comentário