A origem da Cultura grega

Vinte anos atrás, Martin Bernal, professor de estudos mediterrâneos e orientais na Universidade de Cornell, EUA, provocou escândalo entre estudiosos da cultura clássica ao publicar “Black Athena” (“Atena Negra”), em que defende que grande parte da cultura grega é de origem africana, em primeiro lugar, e asiática, em segundo. A África a que se refere é, sobretudo o Egito. Outra tese do livro – de menor importância, mas que justifica o título – é a de que os egípcios teriam sido negróides.
Bernal não pretende que suas idéias sejam absolutamente novas. Elas correspondem, de acordo com ele, a uma revisão do que denomina o “modelo antigo” das origens gregas. Segundo, por exemplo, Heródoto, no século 5 ac., foi com os egípcios e com os asiáticos que os gregos aprenderam os rendimentos da religião. Observe-se também a extrema reverência que Platão manifesta para com a religião e os mistérios do Egito. O “modelo antigo” comenta Bernal, dominou os estudos da Antiguidade até o fim do século 18.
Esse modelo foi rejeitado nessa época, ao se constituir a disciplina moderna dos Estudos Clássicos. Minimizou-se, então, a importância da influência egípcia e semítica sobre a Grécia,.Segundo Bernal, isso se deu principalmente por razões ideológicas. “Não ficava bem que a Grécia, agora considerada o berço da Europa”, diz “tivesse sido civilizada por africanos e asiáticos, que, para nova “ciência racial”, haviam passado a ser considerados como categoricamente inferiores.
Assim por volta de 1840, produziu-se o “modelo ariano”, segundo o qual a cultura grega teria surgido basicamente a partir das conquistas dos “arianos”, vindo do norte. Considerado como absolutamente original, a cultura grega passou a ser contrastada com as culturas que a cercavam como a luz com a escuridão. Como poderia esta influenciar aquela? Lembro que foi de fato esse o modelo que aprendi nas aulas de história, no Brasil.
Bernal, com toda razão, afirma que ainda que a Grécia tenha sofrido invasões de etnias indo-européias vinda do norte, isso não autorizaria a negar a influência egípcia e asiática na formação da sua cultura.
Ele está certo ao criticar o modelo ariano. Entretanto, o seu próprio “modelo antigo revisto” foi rapidamente assimilado ao “afrocentrismo”, uma ideologia que, nos seus momentos mais extremos, afirma, por exemplo, que a cultura grega foi roubada da egípcia. Pois bem, longe de dissociar de tais tolices, Bernal declara, por exemplo, que “os acadêmicos podem preferir a palavra que está na moda, apropriação, mas a palavra roubo não é inteiramente, inadequada em tais casos”.
Bernal está errado. Apropriação não é eufemismo para roubo. Roubo é uma apropriação ilícita, em que o proprietário do objeto roubado é lesado. Por que considerar ilícitas as apropriações interculturais? Os gregos se apropriaram, por exemplo, do proto-alfabeto fenício. Não só, ao fazê-lo, não lesaram os fenícios mas tendo transformado esse proto-alfabeto num alfabeto perfeitamente fonético , os gregos legaram, em princípio, ao resto do mundo.
Não é possível negar nem a capacidade que a Grécia teve de se apropriar de todas as formas culturais que lhe interessam, nem a originalidade do que foi por ela produzida a partir de tais apropriações. Essa originalidade não se deveu a “raça” nenhuma. Ainda que a Grécia continental tenha sofrido invasões de etnias indo-européias, essas se terão sem dúvida fundida a outras etnias no verdadeiro crisol étnico que era o Mediterrâneo oriental. È o que permite a Isócrates, no século 4 a. C.,declarar que “são chamados gregos antes os que participam da nossa educação do que os que participam de uma raça comum”.
Qual o segredo da originalidade da Grécia? Talvez Arnold Hauser tenha chagado perto de descobrir-lo ao falar de Homero. Para ele, o “espírito sem lei e irreverente” dos príncipes aqueus da idade heróica deve-se ao fato de que eram piratas saqueadores que haviam obtido uma série fulminante de vitorias sobre povos mais civilizados. Com Isso, emanciparam-se da sua religião ancestral, ao mesmo tempo em que desprezavam as religiões dos povos conquistados, exatamente por serem religiões de povos conquistados. Pois foi mais ou menos assim que os helenos conseguiram se conservar: unidos em torno de Homero e da língua grega, abertos ao turbilhão cultural mediterrâneo e singularmente livre, quanto que qualquer Igreja quanto de qualquer Estado central.
Bernal não pretende que suas idéias sejam absolutamente novas. Elas correspondem, de acordo com ele, a uma revisão do que denomina o “modelo antigo” das origens gregas. Segundo, por exemplo, Heródoto, no século 5 ac., foi com os egípcios e com os asiáticos que os gregos aprenderam os rendimentos da religião. Observe-se também a extrema reverência que Platão manifesta para com a religião e os mistérios do Egito. O “modelo antigo” comenta Bernal, dominou os estudos da Antiguidade até o fim do século 18.
Esse modelo foi rejeitado nessa época, ao se constituir a disciplina moderna dos Estudos Clássicos. Minimizou-se, então, a importância da influência egípcia e semítica sobre a Grécia,.Segundo Bernal, isso se deu principalmente por razões ideológicas. “Não ficava bem que a Grécia, agora considerada o berço da Europa”, diz “tivesse sido civilizada por africanos e asiáticos, que, para nova “ciência racial”, haviam passado a ser considerados como categoricamente inferiores.
Assim por volta de 1840, produziu-se o “modelo ariano”, segundo o qual a cultura grega teria surgido basicamente a partir das conquistas dos “arianos”, vindo do norte. Considerado como absolutamente original, a cultura grega passou a ser contrastada com as culturas que a cercavam como a luz com a escuridão. Como poderia esta influenciar aquela? Lembro que foi de fato esse o modelo que aprendi nas aulas de história, no Brasil.
Bernal, com toda razão, afirma que ainda que a Grécia tenha sofrido invasões de etnias indo-européias vinda do norte, isso não autorizaria a negar a influência egípcia e asiática na formação da sua cultura.
Ele está certo ao criticar o modelo ariano. Entretanto, o seu próprio “modelo antigo revisto” foi rapidamente assimilado ao “afrocentrismo”, uma ideologia que, nos seus momentos mais extremos, afirma, por exemplo, que a cultura grega foi roubada da egípcia. Pois bem, longe de dissociar de tais tolices, Bernal declara, por exemplo, que “os acadêmicos podem preferir a palavra que está na moda, apropriação, mas a palavra roubo não é inteiramente, inadequada em tais casos”.
Bernal está errado. Apropriação não é eufemismo para roubo. Roubo é uma apropriação ilícita, em que o proprietário do objeto roubado é lesado. Por que considerar ilícitas as apropriações interculturais? Os gregos se apropriaram, por exemplo, do proto-alfabeto fenício. Não só, ao fazê-lo, não lesaram os fenícios mas tendo transformado esse proto-alfabeto num alfabeto perfeitamente fonético , os gregos legaram, em princípio, ao resto do mundo.
Não é possível negar nem a capacidade que a Grécia teve de se apropriar de todas as formas culturais que lhe interessam, nem a originalidade do que foi por ela produzida a partir de tais apropriações. Essa originalidade não se deveu a “raça” nenhuma. Ainda que a Grécia continental tenha sofrido invasões de etnias indo-européias, essas se terão sem dúvida fundida a outras etnias no verdadeiro crisol étnico que era o Mediterrâneo oriental. È o que permite a Isócrates, no século 4 a. C.,declarar que “são chamados gregos antes os que participam da nossa educação do que os que participam de uma raça comum”.
Qual o segredo da originalidade da Grécia? Talvez Arnold Hauser tenha chagado perto de descobrir-lo ao falar de Homero. Para ele, o “espírito sem lei e irreverente” dos príncipes aqueus da idade heróica deve-se ao fato de que eram piratas saqueadores que haviam obtido uma série fulminante de vitorias sobre povos mais civilizados. Com Isso, emanciparam-se da sua religião ancestral, ao mesmo tempo em que desprezavam as religiões dos povos conquistados, exatamente por serem religiões de povos conquistados. Pois foi mais ou menos assim que os helenos conseguiram se conservar: unidos em torno de Homero e da língua grega, abertos ao turbilhão cultural mediterrâneo e singularmente livre, quanto que qualquer Igreja quanto de qualquer Estado central.
ANTONIO CICERO
Folha de São Paulo - 11/08/2007
Folha de São Paulo - 11/08/2007
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