EUA e Índia a nova Geopolitica

Ao chegar a um acordo com a Índia sobre a cooperação nuclear no setor civil, os EUA superam o maior obstáculo à muito aguardada aproximação entre as duas maiores democracias mundiais: o ressentimento de Nova Déli quanto à condição da pária nuclear impostas ao país.
Os proponentes de um relacionamento mais estreito entre os dois “aliados naturais” vêem o potencial de uma parceria estratégica capaz de redefinir o panorama geopolítico do séc. 21. Os EUA que apenas recentemente tentava manter o equilíbrio entre o Paquistão e Índia, negando a esta uma posição proeminente no sul da Ásia, agora estão apoiando abertamente sua ascensão às fileiras das grandes potências.
Por quase seis décadas, o relacionamento entre Washington e Nova Déli foi marcado pela desconfiança e pelo distanciamento. O apoio do presidente Dwight Eisenhower ao Paquistão, em 1954; o belicoso envio de porta-aviões equipados com armas nucleares à baia de Bengala, durante a guerra entre Índia e Paquistão em 1971; e o fervoroso anticomunismo americano na Guerra Fria serviram para alienar Nova Déli. A rejeição da Índia socialista aos padrões americanos era acompanhado, do outro lado, por irritação de Washington quanto à guinada pró-soviética que a opção pelo não-alinhamento adotado sob o governo de Nehru representava.
O fim da Guerra Fria, em 1991, criou uma oportunidade de recomeçar. Mas durante mais de uma década, as chances foram desperdiçadas, em largas medida devido à recusa da elite estratégica indiana em ceder à pressão americana para que o país abandonasse sua opção de desenvolver armas nucleares, aderindo em lugar disso ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TPN). A decisão da Índia de testar cinco armas nucleares no deserto do Rajahstão, em maio de 1998, gerou a imposição de sanções de Washington.
O significado da mudança pode ser avaliado com base na escala da oposição gerada. Os oponentes do novo regime estão indignados diante de um acordo que parece invalidar porções essenciais do TPN.
O governo americano argumenta que nem todas as formas de proliferação se equivalem. Armas nucleares em mãos da Coréia do Norte ou Irã, países que “aderiram ao tratado de não-proliferação nuclear mas estão trapaceando” no cumprimento de suas obrigações internacionais, são mais perigosas do que armas nucleares sob o controle de um pais como a Índia, que não aderiu ao tratado mas tem um “bom histórico” no que tange à proliferação.
O que torna a Índia, uma exceção? Parte da resposta vem da tendência do presidente George W. Bush de tomar grandes decisões baseadas ao menos em parte em seus instintos, e deixar para os outros a negociação dos detalhes. No caso da Índia, Bush admira o fato de o país ser uma grande democracia que compartilha de sua preocupação com o terrorismo islâmico. Uma Índia ascendente também representaria um contra peso à China autoritária.
Ao longo dos dez últimos anos, a Índia veio a adquirir importância geoestratégica nova em Washington, já que o Conselho Nacional de Informações passou a argumentar que a emergência da China e da Índia terá efeito mundial comparável ao da ascensão da Alemanha no séc. 19 e dos EUA no começo do séc. 20. Entre as duas potencias asiáticas emergentes, não há duvida quanto à preferência dos neoconservadores. Uma Índia que possa ascender como “contrapeso geopolítico” à China e bastião da paz americana na região é um tema freqüente nos debates internos do governo Bush.
Os EUA se recusaram a estender a mesma cooperação nuclear ao Paquistão. Para Bush, os dois países “têm historias e necessidades diferentes”, uma alusão à venda de tecnologia ao Irã e a Coréia do Norte por A. Q. Khan, o principal cientista nuclear paquistanês. O Paquistão está procurando novos reatores. A china, que já forneceu um construindo recentemente na província de Punjab, é uma fonte provável.
Dada a crescente influência do lobby indiano em Washington, seria uma surpresa que o congresso decidisse reverter o curso quando o tratado for colocado em votação. O acordo deve estimular o comercio entre os dois países – que representa apenas uma fração dos fluxos comerciais entre a China e EUA. Entre as áreas mais citadas estão a biotecnologia, informática, tecnologia espacial e claro energia nuclear.
Mas talvez a mais importante seja a defesa. A Índia planeja gastar US$ 10 bilhões por ano nos próximos cinco anos para modernizar suas forças armadas. Em maio, o país fez a maior compra militar dos EUA, US$ 1 bilhão em aviões de transporte Hercules C-130J. a Boing e a Lockheed Martin estão de olho num contrato de US$ 10 bilhões para o fornecimento de caças. Os EUA se preparam para tomar o lugar da Rússia como principal fornecedor de defesa da Índia – parcialmente devido ao acordo nuclear.
DO FINANCIAL TIMES
Jo Johnson e Edward Luce
03/08/2007
Os proponentes de um relacionamento mais estreito entre os dois “aliados naturais” vêem o potencial de uma parceria estratégica capaz de redefinir o panorama geopolítico do séc. 21. Os EUA que apenas recentemente tentava manter o equilíbrio entre o Paquistão e Índia, negando a esta uma posição proeminente no sul da Ásia, agora estão apoiando abertamente sua ascensão às fileiras das grandes potências.
Por quase seis décadas, o relacionamento entre Washington e Nova Déli foi marcado pela desconfiança e pelo distanciamento. O apoio do presidente Dwight Eisenhower ao Paquistão, em 1954; o belicoso envio de porta-aviões equipados com armas nucleares à baia de Bengala, durante a guerra entre Índia e Paquistão em 1971; e o fervoroso anticomunismo americano na Guerra Fria serviram para alienar Nova Déli. A rejeição da Índia socialista aos padrões americanos era acompanhado, do outro lado, por irritação de Washington quanto à guinada pró-soviética que a opção pelo não-alinhamento adotado sob o governo de Nehru representava.
O fim da Guerra Fria, em 1991, criou uma oportunidade de recomeçar. Mas durante mais de uma década, as chances foram desperdiçadas, em largas medida devido à recusa da elite estratégica indiana em ceder à pressão americana para que o país abandonasse sua opção de desenvolver armas nucleares, aderindo em lugar disso ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TPN). A decisão da Índia de testar cinco armas nucleares no deserto do Rajahstão, em maio de 1998, gerou a imposição de sanções de Washington.
O significado da mudança pode ser avaliado com base na escala da oposição gerada. Os oponentes do novo regime estão indignados diante de um acordo que parece invalidar porções essenciais do TPN.
O governo americano argumenta que nem todas as formas de proliferação se equivalem. Armas nucleares em mãos da Coréia do Norte ou Irã, países que “aderiram ao tratado de não-proliferação nuclear mas estão trapaceando” no cumprimento de suas obrigações internacionais, são mais perigosas do que armas nucleares sob o controle de um pais como a Índia, que não aderiu ao tratado mas tem um “bom histórico” no que tange à proliferação.
O que torna a Índia, uma exceção? Parte da resposta vem da tendência do presidente George W. Bush de tomar grandes decisões baseadas ao menos em parte em seus instintos, e deixar para os outros a negociação dos detalhes. No caso da Índia, Bush admira o fato de o país ser uma grande democracia que compartilha de sua preocupação com o terrorismo islâmico. Uma Índia ascendente também representaria um contra peso à China autoritária.
Ao longo dos dez últimos anos, a Índia veio a adquirir importância geoestratégica nova em Washington, já que o Conselho Nacional de Informações passou a argumentar que a emergência da China e da Índia terá efeito mundial comparável ao da ascensão da Alemanha no séc. 19 e dos EUA no começo do séc. 20. Entre as duas potencias asiáticas emergentes, não há duvida quanto à preferência dos neoconservadores. Uma Índia que possa ascender como “contrapeso geopolítico” à China e bastião da paz americana na região é um tema freqüente nos debates internos do governo Bush.
Os EUA se recusaram a estender a mesma cooperação nuclear ao Paquistão. Para Bush, os dois países “têm historias e necessidades diferentes”, uma alusão à venda de tecnologia ao Irã e a Coréia do Norte por A. Q. Khan, o principal cientista nuclear paquistanês. O Paquistão está procurando novos reatores. A china, que já forneceu um construindo recentemente na província de Punjab, é uma fonte provável.
Dada a crescente influência do lobby indiano em Washington, seria uma surpresa que o congresso decidisse reverter o curso quando o tratado for colocado em votação. O acordo deve estimular o comercio entre os dois países – que representa apenas uma fração dos fluxos comerciais entre a China e EUA. Entre as áreas mais citadas estão a biotecnologia, informática, tecnologia espacial e claro energia nuclear.
Mas talvez a mais importante seja a defesa. A Índia planeja gastar US$ 10 bilhões por ano nos próximos cinco anos para modernizar suas forças armadas. Em maio, o país fez a maior compra militar dos EUA, US$ 1 bilhão em aviões de transporte Hercules C-130J. a Boing e a Lockheed Martin estão de olho num contrato de US$ 10 bilhões para o fornecimento de caças. Os EUA se preparam para tomar o lugar da Rússia como principal fornecedor de defesa da Índia – parcialmente devido ao acordo nuclear.
DO FINANCIAL TIMES
Jo Johnson e Edward Luce
03/08/2007
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