Leitos de Folhas Verdes
Nestes tempos de Pandemia um pouco de poesia para alegrar
o espírito.
Repare neste poema magnifico do mestre Gonçalves Dias
combina a tematização literária do índio brasileiro com as mais antigas tradições
do lirismo português observando como o poema combina o sujeito lírico feminino
com a temática indigenista, expondo um belíssimo quadro em que a natureza
participa intrinsecamente. Os decassílabos brancos são melodiosos e fluidos. – Em nosso tempo o poeta seria crucificado
pelo politicamente correto. – é isso
Leito de folhas verdes
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves os teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Da tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aromar!
Como prece de amor, como estas preces,
No silencio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham as estrelas,
Correm perfumes no corres da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebrado amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espera ainda
Doce raio de sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, logo ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arosóia na cinta me apertaram.
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores ,
Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir nem tardo acodes
Á voz do meu amor, que em vão te chamar!
Tupã! lá rompe o sol! Do meu leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!
(Gonçalves Dias - Obras poéticas ed. Nacional
1944 v 2 p 16-7)
Comentários
Postar um comentário