PRISÃO IDEOLOGICA



A Prisão Ideológica não está num lugar, ela não tem paredes e nem grades, e o tempo raramente transita das experiências externas para dentro de seus domínios. Ela é uma espécie de Matrix carcerária.
Os prisioneiros dela cumprem pena, mas acreditam serem os mais livres habitantes do universo. Estão ali por apenas três crimes: rejeitaram a realidade em troca de um ideal distópico; abandonaram a busca da verdade pela justificava de uma ideologia simplista, sedutora e alienante; e desprezaram a sinceridade por uma vida de fingimento.
Os condenados à prisão ideológica pegaram, in limine, prisão perpétua. Eles não podem mais sair por intermédio dos agentes e sistemas que os colocaram lá. E mesmo que não haja muros ou portas, ao invés de fugirem, mais eles tendem a adentrar nos calabouços. Os únicos juízes que podem libertá-los não fazem parte daquele sistema prisional.
Com o passar dos anos, os detentos da Prisão Ideológica vão perdendo as suas formas e substâncias originais. Eles vão se tornando sombras daquilo que eram e, como silhuetas disformes do que já foram, se parecem cada vez mais iguais uns com os outros, sendo progressivamente esvaziados do brilho das suas personalidades e individualidades originais, que vão sendo preenchidas por um negrume coletivo, sistematicamente mais uniforme, nestes vultos humanos.
Estes escravos das ideologias são como os Nazgûl de Tolkien, mas ao invés de nove, são milhões; ao invés de Espectros do Anel, são Espectros da Ideologia.
Na Prisão Ideológica, a redução de pena significa a própria libertação, pois basta descobrir a ausência de celas, muros, grades, cercas e captura, que o prisioneiro se permite vislumbrar ser livre para sair.
A única coisa que existe naquele complexo de mentiras, ilusões, abstrações, fantasias, paranoias, histerias, alienações e desejos  é uma horda de carcereiros, vigias e outros prisioneiros acaguetes, que simplesmente, e no máximo, podem acusar, espernear e alardear a intenção de sair dos outros.
Os prisioneiros ideológicos não gostam de visitas e nem estão abertos a entenderem ou discutirem as causas ou motivos que os conduziram para aquela reclusão. Quanto mais hostis às visitas mais eles se enfurnam naquela prisão mental, atando mais grilhões e coleiras neles mesmos, que limitam cada vez mais o vasto mundo existente para além daquele diminuto e superficial claustro mental. naquela cadeia, cada dia preso ali, a distância entre a sanidade e insanidade, entre a verdade e a mentira, entre a coerência e a incoerência, entre a bondade e a maldade, entre a competência e a incompetência, entre a beleza e a feiura, entre a inteligência e a burrice, entre a justiça e a injustiça, entre a dependência e a independência, entre a virtude e o vício, e entre a realidade e a ilusão, aumenta. E, lá dentro, eles sistematicamente estão do lado incorreto da pousada da liberdade, numa situação diminuta de existência humana, e no obscuro ocaso das dádivas eternas.
O sonho de liberdade  que eles pensam estar gozando plenamente num pesadelo invertido após preferirem a pílula (ou supositório) azul  só acontece mediante três possibilidades: choque de realidade; humilhação pública; e convencimento argumentativo. O choque de realidade ocorre quando algum acontecimento do mundo real atua direto na vida do detento ideológico, sacudindo-o de sua hipnose e fazendo com que ele ingira uma pílula vermelha goela abaixo que seja capaz de quebrar as estruturas mentais de aprisionamento montadas há tempos, e que pertencem e são substâncias daquela penitenciária, fazendo com que ele acorde de seu torpor cognitivo.
A humilhação pública ocorre quando o aprisionado é submetido a um grande vexame ou humilhação perante outras pessoas, como se fora um supositório vermelho aplicado na frente de todos, por alguém de fora daquele cárcere e que, primeiro confunde e irrita o humilhado, depois provoca o processo de busca de refutação, aquisição de conhecimento, percepção da sua ilusão, miséria e engano, e, por fim, a libertação.
O convencimento argumentativo ocorre quando há uma sedução retórica feita por uma visita ou um ex-detento talentosos, que convence os trancafiados a levarem consigo próprios, ou mesmo tomarem posteriormente, a pílula vermelha da quebra da simulação ideológica de mundo; com isso, se realiza a restauração do acesso dialético ao prisioneiro e destrói aquela virtualidade prisional através da semeadura de uma boa persuasão lógica que, depois de plantada, pode ou não germinar, libertando o aprisionado. Diante disso, das formas de sair da Prisão Ideológica pelo condenado, uma delas parte de si próprio, via ocorrências e circunstâncias externas, e as outras duas dependem da interação com as demais pessoas do mundo externo: as que ali não estejam mais presas ou as que jamais ali entraram. A maior chance de liberdade, então, reside pela ação de visitas e libertos de fora.
O grande problema é que a comunicação entre os livres e os libertos com os condenados torna-se cada vez mais dificultada pela institucionalização destes na Prisão Ideológica; algo que aumenta sensivelmente com o tempo do aprisionado, com a inexperiência de vida dele, com a sua pouca idade, com a sanidade psíquica e física, e com o tipo de ideologia que o levou lá para dentro.
Em se tornando os prisioneiros cada vez mais arredios a diálogos com quem está livre, maior é chance deles cumprirem suas penas até a morte. É possível imaginar o drama da Prisão Ideológica quando sabemos que ela existe, sabemos que alguém com potencial é prisioneiro de lá, sabemos que ele pensa que está gozando de plena liberdade e razão, e sabemos que estamos sendo incapazes de removê-los daquele não-lugar escravizante de caracteres. Conforme pessoas que amamos e que queremos ver libertas se acorrentam mais na Prisão Ideológica e não conseguimos acessá-las para indicarmos alguma rota de fuga, ficando crescentemente incomunicáveis, mais sentimos os efeitos desta nefasta fortaleza de inteligências, consciências e almas.
Pelo nosso discernimento da sua existência e completa inconsciência deles, os prisioneiros daquela Bastilha de Personalidades, a agonia nos envolve. A Prisão Ideológica é capaz de gerar, infelizmente, mais sofrimento e angústia, em vida, em que está cá fora do que quem está lá dentro. É um terrível sentimento de desesperança em ser incapaz de desfazer a perda da personalidade (que só aumenta) e de recuperar a individualidade (que só diminuiu) dos que foram capturados pelos agentes da Prisão Ideológica. Especialmente os prisioneiros que amamos e que, na medida em que o tempo vai se esgotando, cresce a possibilidade de perdê-los para o resto de nossas vidas e que, talvez, desesperadamente, por toda a eternidade deles. 

WRITTEN BY

Cristiano Xavier














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