O baú dos Templários
Até que demorou para a extrema direita européia buscar inspiração nos templários para seus atos terroristas, como fez Anders Breivik.
O norueguês homicida afirma pertencer a uma nova Ordem dos Cavaleiros do Templo, que reúne europeus engajados em combater o multiculturalismo em geral e o islã em particular.
Faz sentido. Dependendo do ponto de vista, os templários são os maiores heróis da cristandade – ou os piores vilões.
A ordem foi fundada no 19° ano do Reino Cristão de Jerusalém, que havia sido conquistado meio por acaso 1099, durante a Primeira Cruzada. Como a população da cidade fora dizimada pelos invasores – que não fizeram distinção entre cristãos ortodoxos, judeus e mulçumanos -,os novos soberanos passaram a pregar a imigração de europeus para Terra Santa.
O problema é que as rotas eram infestadas de criminosos. Em 1118, Hugo de Payens e mais oito cavaleiros criaram uma organização autônoma de monges combatentes para proteger os peregrinos. A ordem jurava fidelidade apenas ao papa e, financiada por impostos eclesiásticos, se tornou o primeiro exército regular do Ocidente desde a queda de Roma em 476 d.c.
Com a conquista de Jerusalém por Saladino, em 1187, os templários voltaram sua atenção para a Europa, onde adquiriram vastas extensões de terra e organizaram um rudimentar sistema bancário. As lendas, no entanto, os transformaram em guardiões do Santo Graal, o místico cálice que Jesus Cristo usara na Santa Ceia e que serviria para recolher o seu sangue na cruz.
Os mitos do Graal são uma espécie de compensação cultural pela Terra Santa para o islã.
Não por acaso, em narrativas posteriores, o cálice se transforma na própria descendência de Cristo e Maria Madalena, que refugiada no sul da França, dá origem à dinastia dos reis merovíngios e, mais tarde, à casa dos Habsburgo, soberanos do Império Austro-Húngaro. A linhagem, como o cálice, estaria sob a proteção dos templários, braços armado de organização ainda mais misteriosa, o Priorado de Sião.
Ao contrário da trama de “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, os guardiões do Graal não querem promover filosofia “new age”, mais restaurar a monarquia na França e restabelecer o Reino Cristão de Jerusalém. Afinal, Jesus Jr., além de merovíngio e Habsburgo, também descente do Rei David e, portanto, é legitimo soberano da Terra Santa. Nada mais à extrema direita do que sociedades secretas excludentes e elitistas. O nazismo sempre foi associado a ordem esotéricas, que, no entanto, não o salvaram da derrota. Os templários não tiveram melhor sorte.
A ordem foi exterminada em 1307, quando o último grão-mestre, Jacques De Molay, foi condenado à fogueira por heresia. A inquisição acusava os cavaleiros de adorarem u demônio de três cabeças chamado Bafomé. Entre os ocultistas, a criatura é associada à sabedoria mas há também quem veja em seu nome uma corruptela de “Maomé”, que a ordem teria aprendido a cultura na Terra Santa.
Se deus existe, ele tem o mesmo um senso de humor dos diabos.
Edson Aran
É autor de “conspirações – tudo que Querem que você saiba” e diretor da revista “Playboy”

Comentários
Postar um comentário