Não haverá vencedores
Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. Não se trata de nenhuma marcha revolucionária, como a cena poderia sugerir em outros tempos e lugar.
Eles estão com armas nas mãos e as cabeças vazias. Não defendem ideologia. Não disputam o Estado. Não há sequer expectativa de vida. Só conhecem a barbárie. A maioria não concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa.
As imagens aéreas na TV, em tempo real, são terríveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cadáveres a qualquer hora. A cena ocorre após a chegada das forças policiais do Estado à vila Cruzeiro e ao complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.
O ideal seria uma rendição, mas isso é difícil de acontecer. O risco de um banho de sangue sim, é real, porque prevalece na segurança publica a lógica da guerra. O estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, não costuma haver vencedores. Esse modelo de enfretamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão a policia entrou e matou 19. E eis que, agora, a policia vê necessidade de entrar na mesma favela de novo.
Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da segunda Guerra Mundial não passa de fraude midiática.
Essa crise se explica, em parte, por uma concepção do papel da policia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o trafico. Este existe em todo o lugar no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas às favelas?
É preciso patrulhar a baia de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negocio das armas e das drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a policia que mais mata e que mais morre no mundo não resolve.
Falta vontade política para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza – onde há poder e dinheiro.
E, na origem da crise, há ainda a desigualdade. É a miséria que se apresenta como pano de fundo no zoom das câmeras de TV. Mas são os homens armados em fuga e o aparato bélico do Estado os protagonistas do impressionante espetáculo, em narrativa estruturada pelo viés maniqueísta da eterna “guerra” enquanto a crise aparece não afetar tanto assim a vida na zona sul, onde a ação da policia se traduziu no aumento do policiamento preventivo. A violência é desigual.
É preciso construir mais do que só a solução tópica de uma crise episódica. Nem nas UPPs se providencio ainda algo além da ação policial. Falta saúde, creche, escolas, assistência social, lazer.
O poder público não recolhe o lixo nas áreas em que a policia é instrumento de apartheid. Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para segurança pública terá de passar pela garantia dos direitos básicos dos cidadãos da favela.
Da população das favelas, 99% são pessoas honestas que saem todo o dia para trabalhar na fabrica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. Essa gente – com as suas comunidades tornadas em praças de “guerra” – não consegue exercer sequer o direito de dormir em paz. Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no judiciário...
Marcelo Freixo,
professor de história, deputado estadual (PSOL-RJ), é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro
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